Percepções do Áudio (Caminhos da mente)
“Como pode a música fazer sentido para um ouvido e um cérebro que se desenvolveram com a finalidade de detectar o leão que se aproxima, ou rastrear a gazela desprevenida? (...)”.
Robert Jourdain
Introdução
Esse texto apresentará algumas formas de percepção auditiva, nos diversos animais, onde podemos notar o áudio como necessidade de sobrevivência para muitos, como o mesmo nos atrai, desperta a curiosidade e cria uma ligação mental direta. Por mais interessante que seja esse texto não apresenta um conteúdo técnico sobre algumas formas para a construção e edição do áudio, ficando restrito ao modo como se relaciona com a sociedade, seja ela racional ou irracional.
Os seres produzem suas especificas formas de áudio, fazendo uso para a comunicação, transmitir algo, demarcando território, informando a presença de outros seres ou por mero prazer no próprio barulho, esses sons são estruturados nas diversas intensidades, sendo próxima da nossa, ou transmitindo em infra ou ultra-som, a esses sons notamos que não temos acessos a primeira forma de áudio e nos incomodamos claramente com a transmissão do segundo, mas isso voltaremos a citar mais a frente, daí podemos questionar porque sons que tem como origem a mesma em todos os animais podem interferir incomodando uma outra espécie, fato que pode ser exemplificado como a presença de um grilo a noite que nos tira o sono, com um barulho não tão elevado, mas incomodo. E isso não está restrito a nossa percepção, imagine a recepção sonora de uma formiga após passarmos andando ao seu lado, barulho que a incomoda e ativa seu sistema de defesa através do som. Sendo assim apresentamos o áudio como uma forma para se posicionar no espaço (localização de onde está vindo o som) e ser um meio para ativar esse sistema de defesa.
O som e a linguagem
Primeiramente vamos tomar o áudio dentre os seres de nossa espécie, onde podemos notar o áudio como iniciação para a fala, durante o período infantil a percepção vai se ampliando, fazendo com que possamos localizar os sons em um ambiente, nos incomodamos e produzimos outros, acordamos com quaisquer sons etc, pois ainda não estamos acostumados com aquelas formas sonoras, esses problemas fazem com que adquiramos um repertório capaz de já não ficarmos não extasiados ou assustados. Todavia uma criança que já desperta problemas auditivos perde essa referência, não encontrando os problemas normais quanto ao incomodo, mas gera o silêncio, pois a mesma perde a referência dos sons, pois não escuta sua própria voz, nem outros sons, está restrito a um mundo de vibrações, sua ligação com o mundo está comprometida. A percepção da fala é obtida através da atenção, do reconhecimento das frases, de seus significados, sons etc, isso é algo que necessariamente é recorrente da memória, mas não basta ouvir o som, é necessário um processamento mental para o entendimento do mesmo.
A percepção auditiva pode ser prejudicada devido a alterações físicas (auditivas e neurológicas, por exemplo, emocionais e ambientais).
O áudio tem a função da comunicação direta, onde você através da fala constitui sua linguagem, organiza signos no espaço, define parâmetros sociais, leva-nos ao estudo desses diferentes sons, exprime sensações, emoções etc. O homem sofreu sensíveis mudanças na sua percepção, os povos mais antigos (pré-históricos) apresentavam uma capacidade auditiva perfeita, pois conseguia notar a proximidade de outros animais mesmo que esses estivessem a quilômetros de distância, não havia a comodidade da tecnologia, da arma de fogo, logo eles tinham que ter essa percepção apurada para não serem vítimas dos outros seres. Ao longo dos tempos essa capacidade foi se perdendo, até chegarmos aos dias de hoje, onde a presença de inúmeros ruídos (barulho) não nos permite que possamos identificar claramente de onde vem esse ou aquele som, sua posição e que objeto ou ser o produz, você perde a referência de sons antigamente mais perceptíveis e passa a ouvir somente os que têm uma freqüência mais elevada. Isso pode ser notado quando saímos das metrópoles e buscamos locais onde não há essa densidade tecnológica, nesses locais sentimos dificuldades de localizar sons de animais, não sabemos onde os mesmos estão posicionados, (tomando como base, se a pessoa fechar os olhos e tentar identificar esses ruídos) esses ruídos que dificilmente são notados nas metrópoles, nos atraem, todavia ofende nossos tímpanos, pois não tem a mesma densidade sonora desses locais. Nesse caso não é questão de repertório, é que você perdeu essa capacidade, seu mecanismo de defesa agora deixou de ser a audição, e sim a tecnologia, a arma de fogo.
Outra função do áudio, no caso a música, comunica em diferentes grupos, de diferentes formas, exprimindo necessidades e emoções servindo de estimulante, tendo influência mental total, nos levando a um transe singular, essa linguagem por mais que absorvida por inúmeros grupos, é uma linguagem individual, que não chega do mesmo modo a todas as outras pessoas, ela ativa e ocupa o espaço que era utilizado para a defesa, deixando o ser vulnerável.
Apresentando algumas diferenças de percepção auditiva entre os seres, podemos citar exemplos extremos como a percepção por parte dos elefantes, dos homens e dos morcegos, seres estes que habitam o mesmo ambiente, mas desenvolveram suas percepções de acordo com suas necessidades.
O morcego, primeiramente, compreende o mundo através de ultra-som, não tendo uma audição tão apurada, faz uso da emissão dessas ondas para se locomover, sendo que, o mesmo por não enxergar durante o dia, e na verdade nem à noite, emite ondas que onde forem rebatidas significa um obstáculo a sua frente, quando não refletida, significa caminho livre, por mais barulho que façam essas ondas não são capturadas por nós em sua plenitude, pois isso se torna um mecanismo natural deste ser, uma forma de GPS dos morcegos.
Já o homem, como já foi citado acima, não absorve nem as ondas de infra-som nem de ultra-som, trabalhando numa freqüência considerada normal, de intersecção entre as outras, ainda mais prejudicada com os efeitos tecnológicos. Se pensarmos o quanto o lado visual está hoje mais presente e se tornou mais importante que o auditivo, chegamos a alguns pontos interessantes de análise, alguns exemplos podem ser citados como prejudiciais: o trânsito de uma metrópole como São Paulo, que já é suficientemente ofensivo somado ao barulho de obras pela cidade, isso ultrapassa ferozmente a freqüência auditiva das pessoas, ou um show onde os amplificadores posicionados para distribuição do som no ambiente é extremamente alto e ao sair deste mesmo show a pessoa sai com um zumbido que permanece por horas. Estes exemplos nos ajudam a compreender o quanto de possibilidades podem prejudicar a audição, logo, as pessoas já não compreendem o ambiente a sua volta, deixando escapar alguns ruídos anteriormente captados.
Deixo por último os elefantes, porque talvez estes sejam os mais interessantes, pois através desse exemplo podemos estabelecer algumas relações com acontecimentos de nossas vidas e suas relações de dependência.
Estes seres têm uma das melhores percepções dentre os animais, conseguem perceber os mínimos ruídos, imperceptíveis aos nossos ouvidos, compreendem o mundo de forma diferenciada, pois um barulho que a nós é considerado normal, para eles é absurdamente alto, suas ondas de percepção são em infra-som (os sons mínimos), a respeito disto podemos notar um recente fato que nos ajuda a ter uma noção do que estamos falando, o Tsunami que ao atingir a costa devastou cidades foi um efeito onde o solo sofreu um afundamento de terra em um certo ponto, que gerou essa onda gigantesca, o fato que não foi observado por pesquisadores e nem percebido por nós, foi captado pelos elefantes, que ouviram o som de afundamento do solo e fugiram para regiões mais altas, causando transtornos à sociedade, mas servindo de alerta, alerta este que não foi observado pela sociedade.
Ainda nos elefantes sua captação auditiva gera uma relação de dependência, pois o fato de um outro ser proporcionar sons elevados, cria uma relação de superioridade, caso observado no adestramento dos mesmos, pois quando você cria um ambiente em torno de um elefante, ele permanecerá no mesmo, pois desenvolve uma barreira sonora natural.
A percepção auditiva se perde de acordo com as necessidades de cada ser, como o homem pode compreender o mundo através dos sons, se cada vez cria mais problemas para sua própria percepção, como pode desenvolver outras habilidades se cria elementos para substituir a necessidade plena das mesmas habilidades, sejam elas auditivas, visuais etc, não sente nem a terra a seus pés, nem a presença de um outro ser que se aproxima, torna se refém da sua incapacidade sensorial.
Bibliografia
Música, Cérebro e Êxtase: Como a musica captura nossa imaginação – Robert Jourdain
Áudio digital: A tecnologia aplicada à música e ao tratamento de som – Fábio Serra
A importância da percepção auditiva na aprendizagem - Dra. Tânia Regina Bello (Psicopedagoga e Fonoaudióloga)